Segunda-feira, 5 de Março de 2007

O drama da maternidade indesejada

A problemática da maternidade não desejada, do sofrimento daí resultante para os progenitores que, muitas vezes, se vêm obrigados a dar para adopção uma criança, sem dar conta do seu futuro, é um tema que sempre esteve presente em todas as sociedades.
 

Sentimentos como o medo ou vergonha de assumir perante a família ou sociedade comportamentos que esta pode reprovar, induzem, por vezes, à tomada de decisões marcantes nas suas vidas. Estas opções podem passar pela interrupção voluntária da gravidez, adopção ou até abandono, por vezes com desfecho trágico para os intervenientes.
 

O Crime do Padre Amaro aborda esta problemática, sendo, por isso, uma obra intemporal e bastante actualizada. No romance está bem patente toda a ansiedade de Amaro e Amélia, verificável nas seguintes passagens retiradas do mesmo:

 
Tomada de consciência da gravidez e o desespero


 
“… Amaro abria abruptamente a porta do escritório, fechou-a de repelão e, sem dar os bons-dias ao colega, exclamou:

-   A rapariga está grávida!

O cónego que estava escrevendo, caiu como uma massa fulminada para as costas da cadeira:

- Que me diz você?

- Grávida!

E no silêncio que se fez o soalho gemia sob os passeios furiosos do pároco da janela para a estante.

- Está você certo disso? - perguntou enfim o cónego com pavor.

- Certíssimo! A mulher já andava desconfiada. Já não fazia senão chorar… Mas agora é certo… As mulheres conhecem, não se enganam. Há todas as provas… Que hei-de fazer, Padre-Mestre? …. ”

 

(Página 271)


O sentimento de não ser aceite pela sociedade e família

 

“…. – Imagine você o escândalo! A mãe, a vizinha …. E se suspeitam de mim?... Estou perdido… Eu não quero saber, eu fujo!

O cónego coçava estupidamente o cachaço, com o beiço caído como uma tromba. Representavam-se-lhe já os gritos em casa, a noite do parto, a S. Joaneira eternamente em lágrimas, toda a sua tranquilidade extinta para sempre…”

 

(Página 271)

 

A tentativa de resolução da situação


“ … - Mas então que quer você? – disse o cónego. - Não quer decerto que se dê uma droga à rapariga, que a arrase…

Amaro encolheu os ombros, impaciente com aquela ideia insensata. O padre-mestre, positivamente, estava divagando…”

 

“ - De quantos meses está ela?

-De quantos meses? Está de agora, está de um mês…

- Então é casá-la! – Exclamou o cónego com explosão. - Então é casá-la com o escrevente!

O padre Amaro deu um pulo:

- Com diabos, tem razão! É de mestre! … “  

 

(Página 272)

  

“… Foi em casa do sineiro, daí a dias, que Amaro participou a Amélia o plano do padre-mestre. Preparou-a, revelando-lhe primeiro que o cónego Dias sabia de tudo…”

 

“… E agora escuta, filha. Não te aflijas com o que te vou dizer, mas é necessário, é a nossa salvação…

Às primeiras palavras, porém, do casamento com o escrevente, Amélia indignou-se com espalhafato.

- Nunca, antes morrer! …”

 

(Página 274)

 

A ponderação de uma solução

 

“ … Amélia recebia estas notícias com desconsolação. Depois das primeiras páginas, a irremediável necessidade impusera-se-lhe, muito forte. Por fim, que lhe restava? Daí a dois ou três meses com aquele seu desgraçado corpo de cinta fina e quadris estreitos, não poderia esconder o seu estado. E que faria então? Fugir de casa, ir como a filha do Tio Cegonha para Lisboa, ser espancada no Bairro Alto pelos marujos ingleses, ou como a Joaninha Gomes, que fora amiga do padre Abílio, levar pela cara os ratos mortos que lhe atiravam os soldados? Não. Então, tinha de casar…

Depois vir-lhe-ia um menino ao fim dos sete meses (era tão frequente!) legitimado pelo sacramento, pela lei e por Deus Nosso Senhor… E o seu filho teria um papá, receberia uma educação, não seria um enjeitado…”

  

(Página 277)


A consumação de uma solução

 

“… - Eu pensei que o Sr. Pároco tinha arranjado tudo… Que se ia dar a criança a criar fora da terra… - Está claro, está claro – interrompeu o pároco com impaciência. – Se a criança nascer viva, é evidente que se há-de dar a criar, e que há-de ser fora da terra… Mas aí é que está! Quem há-de ser a ama? É isso que eu quero que você me arranje. Vai sendo tempo…”

  

“ A Dionísia chegou-se ao pároco, e baixando a voz: - Ai, menino, eu não gosto de acusar ninguém. Mas, está provado, é uma tecedeira de anjos! (…) – O que é isso? Que significa isso? – perguntou o pároco. A Dionísia gaguejou-lhe uma explicação. Eram mulheres que recebiam crianças a criar em casa. E sem excepção as crianças morriam…”

 

(Página 232)

 

O fim

 

“ Meu caro Padre-Mestre:

Treme-me a mão ao escrever estas linhas. A infeliz morreu. Eu não posso, bem vê, e vou-me embora, por se aqui ficasse estalava-me o coração. Sua e Excelentíssima Irmã lá estará tratando do enterro… Eu, como compreende, não posso. Muito lhe agradeço tudo… Até um dia, se Deus quiser que nos tornemos a ver. Por mim conto ir para longe, para alguma pobre paróquia de pastores, acabar meus dias nas lágrimas, na meditação e na penitência. Console como puder a desgraça da mãe. Nunca me esquecerei do que lhe devo, enquanto tiver um sopro de vida. E adeus que nem sei onde tenho a cabeça.

Seu amigo do C.

Amaro Vieira

P.S. – A criança morreu também, já se enterrou. "

 

(Página 359)

 

Fontes:

  • QUEIRÓS, Eça de (1980), O Crime do Padre Amaro, 271, 272, 274, 277, 232, 359. Lisboa: Livros do Brasil
Sentimo-nos: Investigadores

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