Domingo, 18 de Fevereiro de 2007

O gosto requintado de Eça de Queirós

José Maria Eça de Queirós para além de notável escritor, protagonista do realismo em Portugal, era igualmente um conhecido bom garfo. Esta sua característica reflecte-se nas constantes descrições culinárias feitas nas suas obras, desde o jantar no Hotel Central (episódio d’Os Maias) até à destreza gastronómica da S. Joaneira.

Apresentamos, neste contexto, o seguinte excerto, extraído d’O Crime do Padre Amaro (pp.28-30):

"Mas a S. Joaneira gritou de cima:

– Pode subir, senhor cónego! Está o caldo na mesa!

– Ora vá, vá, que você deve estar a cair de fome, Amaro! – disse o cónego, erguendo-se muito pesado.

(…)

No meio da sala de jantar, forrada de papel escuro, a claridade da mesa alegrava, com a sua toalha muito branca, a louça, os copos reluzindo à luz forte dum candeeiro de abat-jour verde. Da terrina subia o vapor cheiroso do caldo e, na larga travessa a galinha gorda, afogada num arroz húmido e branco, rodeada de nacos de bom paio, tinha uma aparência suculenta de prato morgado.

– E o senhor cónego toma um copinho de geleia, sim?

- Vá lá, para fazer companhia – disse jovialmente o cónego, sentando-se e dobrando o guardanapo.

(…)

O cónego deitava-lhe o vinho de alto, fazendo-o espumar.

(…)

Riram; e bebendo, na alegria das reminiscências, recordavam as histórias de então, o catarro do reitor, e o mestre do cantochão que deixara um dia cair do bolso as poesias obscenas de Bocage.

- Como o tempo passa, como o tempo passa! – diziam.

A S. Joaneira então pôs na mesa um prato covo com maçãs assadas.

- Viva! Não, lá nisso também eu entro! – exclamou logo o cónego. A bela maçã assada! nunca me escapa! Grande dona de casa, meu amigo, rica dona de casa, cá a nossa S. Joaneira! Grande dona de casa!

Ela ria; viam-se os seus dois dentes de diante, grandes e chumbados. Foi buscar uma garrafa de vinho do Porto; pôs no prato do cónego, com requintes devotos, uma maçã desfeita, polvilhada de açúcar."
 


Fontes:

  • QUEIRÓS, Eça de (1980), O Crime do Padre Amaro, 28-30. Lisboa: Livros do Brasil
Sentimo-nos: Esfomeados
Publicado por Twice às 19:49
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